Domingo, 22 de Julho de 2007

Tenho inveja dos peixes

Porque hoje é Domingo]

Dizem-me que os peixes não guardam uma memória por mais que uns minutos. Parecendo que não, e apesar de não ter a mínima predilecção por aquários, fiquei muito mais sossegada. É que não posso deixar de confessar que me angustiava a ideia dos pobres peixes obrigados a viver uma vida inteira fechados num boião de vidro, a nadar ali às voltas, sempre com as mesmas pedras e algas artificiais como companhia. Angústia que não se tornava mais leve com o argu­mento que geralmente os aquários contêm mais que um peixe: o que seria estar confinado a morar no mesmo quarto com quatro ou cinco exemplares da minha raça, meses e anos a fio? Só de pensar nisso fico como uma crise de claustrofobia.

Pois é, mas agora com esta nova informação, pela primeira vez na minha já longa existência, tive uma certa inveja de não ser um peixe. E agora que temos um aquário na Redacção até passo pelo animal e o olho-o com outra admiração.

É que pensem bem nas vantagens desta memória com um disco rígido incapaz de guardar mais que uns "bitezinhos". Todos os dias, o mundo deve pare­cer absolutamente novo, todos os dias, tudo o que se faz, faz-se pela primeira vez, com a emoção e a adre­nalina que a primeira vez sempre implica. Já viram o que é abrir a boca de espanto ao ver o Sol nascer e não a voltar a fechá-la mais, de tal forma se está fasci­nado pela catadupa de coisas novas a acontecer? E is­to todos os dias, dia após dia?

Então os casais peixes devem ser felicíssimos - dia­riamente se reapaixonam, só que não têm consciência do "ré". E a senhora peixinho encarnado pode contar ao recém (sempre recém)-marido as suas histórias e graças vinte vezes seguidas, que ele se ri sempre, co­mo se nunca as tivesse ouvido antes. Nada daquelas partes gagas do estilo: "Sabes que quando era peque­nina tinha um triciclo... ah, já te contei não foi?", nem a irritação provocada por aquele olhar distraído com as páginas do jornal, de tão cansado de a ouvir relatar diariamente as tricas do escritório ou as discussões com a vizinha por causa do despejo do lixo.

E pensem só nas vantagens de não se ter memória do passado. Nenhum precisa de preocupar-se com as comparações com os amores que já lá vão e, sobretudo, o senhor peixe encarnado não tem de ouvir as la­múrias da senhora peixinho a queixar-se que ele já não lhe liga como antigamente. E ela escusa de lem­brar-se das vezes que ele deixa a toalha molhada no chão da casa-de-banho ou de recordar que não aguen­ta nem mais uma noite a ouvi-lo ressonar.

Mas os filhos peixes também devem andar radian­tes. Se disserem, todos os dias, que ontem começa­ram as férias, as mães acreditam. Se lhes pedirem uma coroas para gastar na noite, os velhadas nunca respondem que ainda há bocado lhes passaram para as barbatanas umas milenas. E, sobretudo, os ser­mões não duram mais que dois minutos, porque de­pois disso a mãe já não se lembra do que estava a di­zer. Nem há lugar para aquele enumerar da lista de tudo o que os pais fizeram por eles desde o minuto que viram a luz do aquário: "Sabes lá o que sofri para que pudesses nascer. E as noites que passei sem dor­mir? Lembras-te como a mãe dançava bem? Pois, por causa de ti, deixei de ser bailarina profissional, por­que não te queria sacrificar a uma carreira... Vês este cabelos brancos, glu, glu, glu... etc...".

Os colegas peixes dão-se como Deus e os anjos. Para já, todos os dias a hierarquia do aquário deve va­riar. Os chefes, dois minutos depois, podem passar a subordinados, e os contratos põem os cabelos em pé aos fiscais da Inspecção do Trabalho. Nem um ano, nem seis meses, nem sequer três: dois minutos é a média. Além do mais, podem insultar-se todos uns aos outros, em lugar de fazerem úlce­ras com a raiva acumulada, porque as ofensas não perduram.

ISABEL   STILWELL


É o que vos digo: a Ciência bem po­de descobrir onde está o gene respon­sável pela memória dos peixes e transplantá-lo para os humanos. Pois é, tenho inveja dos peixes. Estou a re­petir-me? Vêem como não interessa nada ter uma memória de mais de dois minutos?

publicado por Paula Valentina às 21:49

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