Sábado, 14 de Outubro de 2006

ELOGIO AO AMOR

>> ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in "Expresso"
>>
>>
>>
>>"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona
>>de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita
>>amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de
>>prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
>>Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é
>>mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e
>>das calças e das contas da lavandaria.
>>Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré nupciais, discutem tudo de
>>antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O >>amor
>>passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.
>>Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa
>>variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia >>ser
>>desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. >>O
>>resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam
>>"praticamente" apaixonadas.
>>
>>Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do
>>amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas,
>>farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi
>>namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
>>Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia,
>>são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá, tudo >>bem,
>>tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banalidades,
>>borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona?
>>Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o
>>desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a
>>comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
>>
>>O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha.
>>Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, >>a
>>pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso
>>"dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas
>>e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não
>>se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou
>>a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é >>amor.
>>É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não
>>é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.
>>Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para
>>nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de
>>inferno aberto.
>>
>>O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A
>>"vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é >>um
>>fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem
>>tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não
>>dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa
>>alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe,
>>não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso >>que
>>a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e
>>minta e sonhe o que quiser.
>>
>>O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais
>>bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração
>>apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil,
>>por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
>>E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é
>>ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para
>>perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer
>>e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste,
>>mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode
>>resistir.
>>A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor
>>não.
>>Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
publicado por Paula Valentina às 15:30

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