Domingo, 12 de Novembro de 2006

GANHEI CORAGEM/RUBENS ALVES.. MARAVILHOSO TEXTO !!

>> "Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem
>>coragem
>> para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche.
>> É o meu caso.
>> Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo.
>> Por medo.
>> Albert Camus, ledor de Nietzsche, acrescentou um detalhe
>> acerca da hora quando a coragem chega:
>> "Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos".
>> Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.
>> Vou dizer aquilo sobre que me calei:
>> "O povo unido jamais será vencido": é disso que eu tenho medo.
>> Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como
>>fundamento da ordem política.
>> Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar:
>> a democracia é o governo do povo...
>> Não sei se foi bom negócio: o fato é que a vontade do povo,
>> além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade.
>> Basta ver os programas de televisão que o povo prefere.
>> A Teologia da Libertação sacralizou o povo como
>>instrumento
>> de libertação histórica.
>> Nada mais distante dos textos bíblicos.
>> Na Bíblia o povo e Deus andam sempre em direções opostas.
>> Bastou que Moisés, líder, se distraísse, na montanha, para que o
>>povo, na planície,
>> se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.
>> Voltando das alturas Moisés ficou tão furioso que quebrou
>> as tábuas com os 10 mandamentos.
>> E há estória do profeta Oséias, homem apaixonado!
>> Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!
>> Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição.
>> Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oséias pulava de
>>perdão a perdão..
>> Até que ela o abandonou... Passado muito tempo Oséias
>> perambulava solitário pelo mercado de escravos...
>> E que foi que viu?
>> Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve >> dúvidas.
>> Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre...
>> " Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do
>>amor de Deus.
>> Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta.
>> Ele amava a prostituta.
>> Mas sabia que ela não era confiável.
>> O povo sempre preferia os falsos profetas aos verdadeiros,
>> porque os falsos profetas lhes contavam mentiras.
>> As mentiras são doces. A verdade é amarga.
>> Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.
>> No tempo dos romanos o circo era os cristãos sendo devorados pelos
>>leões.
>> E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas
>>mudaram.
>> Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do
>>circo.
>> O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges
>> sendo queimados em praças públicas.
>> As praças ficavam apinhadas com o povo em festa,
>> se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
>> Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante,
>> no seu livro O homem moral e a sociedade imoral
>> observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres
>>morais.
>> Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem.
>> Mas quando passam a pertencer a um grupo,
>> a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
>> Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma
>>borboleta,
>> se incorporados a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cruéis.
>> Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio
>>adormecido
>> e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos
>>são seres morais.
>> Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a >> preço
>>baixo.
>> Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral,
>> me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado
>>comprava
>> os votos do povo por franguinhos da Sadia.
>> E a democracia se faz com os votos do povo...
>> Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional,
>> segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.
>> É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia.
>> Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é
>>enganado.
>> O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.
>> Quem decide as eleições - e a democracia -
>> são os produtores de imagens.
>> Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as >> imagens
>>mais sedutoras.
>> O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam.
>> Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à
>>coletividade.
>> Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo.
>> Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é >> seduzido.
>> O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
>> Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
>> Jesus Cristo foi crucificado pelo voto popular, que elegeu >> Barrabás.
>> Durante a Revolução Cultural na China de Mao-Tse-Tung,
>> o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.
>> Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
>> O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.
>> O mais famoso dos automóveis foi criado pelo governo alemão para o
>>povo:
>> o Volkswagen.
>> Volk, em alemão, quer dizer "povo"...
>> O povo unido jamais será vencido!
>> Tenho vários gostos que não são populares.
>> Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos...
>> Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa,
>>de Nietzsche,
>> de Saramago, de silêncio, não gosto de churrasco, não gosto de >> rock,
>> não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol
>> (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de
>>futebol...).
>> Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo,
>> eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e >> a
>>brincar
>> de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.
>> De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.
>> Mas, para que esse acontecimento raro aconteça
>> é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute:
>> "Caminhando e cantando e seguindo a canção...
>> " Isso é tarefa para os artistas e educadores:
>> O povo que amo não é uma realidade. É uma esperança.
>>
>> (Folha de S. Paulo, 05/05/2002)
publicado por Paula Valentina às 15:37

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