Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006

O galo orgulhoso!

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>>Era uma vez um grande quintal onde reinava soberano e poderoso galo. >>Orgulhoso de sua função, nada acontecia no quintal sem que ele soubesse e >>participasse. Com sua força descomunal e coragem heróica, enfrentava >>qualquer perigo. Era especialmente orgulhoso de si mesmo, de suas armas >>poderosas, da beleza colorida de sua penas, de seu canto mavioso.
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>>Toda manhã acordava pelo clarão do horizonte e bastava que cantasse duas >>ou três vezes para que o sol se elevasse no céu. "O sol nasce pela força >>do meu canto", dizia ele. "Eu pertenço à linhagem dos levantadores do sol. >>Antes de mim era meu pai; antes de meu pai era meu avô" ...
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>>Um dia uma jovem galinha de beleza esplendorosa veio morar em seu reinado >>e por ela o galo se apaixonou. A paixão correspondida culminou numa noite >>de amor para galo nenhum botar defeito. E foi aquele amor louco, noite >>adentro. Depois do amor, já de madrugada veio o sono. Amou profundamente e >>dormiu profundamente. As primeiras luzes do horizonte não o acordaram como >>de costume. Nem as segundas...Para lá do meio dia, abriu os olhos >>sonolentos para um dia azul, de céu azul brilhantee levou um susto de >>quase cair. Tentou inutilmente cantar, apenas para verificar que o canto >>não lhe passava pelo nó da garganta. -"Então não sou eu quem levanta o >>sol?", Comentou desolado para si mesmo. E caiu em profunda depressão. O >>reconhecimento de que nada havia mudado no galinheiro enquanto dormia >>trouxe-lhe um forte sentimento de inutilidade e um questionamento >>incontrolável de sua própria competência. E veio aquele aperto na >>garganta. A pressão no peito virou dor. A angústia se instalou >>definitivamente e fez com que ele pensasse que só a morte poderia >>solucionar tamanha miséria. "O que vão pensar de mim?", murmurou para si >>mesmo, e lembrou daquele galinho impertinente que por duas ou três vezes >>ousou de longe arrastar-lhe a asa. O medo lhe gelou nos ossos. Medo. >>Angústia. Andou se esgueirando pelo cantos do galinheiro, desolado e sem >>saída. Do fundo de seu sentimento de impotência, humilhado, pensou em >>pedir ajuda aos céus e rezou baixinho, chorando. Talvez tenha sido este >>momento de humildade, único em sua vida, que o tenha ajudado a se lembrar >>que, em uma árvore, lá no fundo do galinheiro, ficava o dia inteiro >>empoleirado um velho galo filósofo que pensava e repensava a vida do >>galinheiro e que costumava com seus sábios conselhos dar orientações úteis >>a quem o procurasse com seus problemas existenciais.
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>>O velho sábio o olhou de cima de seu filosófico poleiro, quando ele vinha >>se esgueirando, tropeçando nos próprio pés, como que se escondendo de si >>mesmo. E disse: "Olá! Você nem precisa dizer nada, do jeito que você está. >>Aposto que você descobriu que não é você quem levanta o sol. Como foi que >>você se distraiu assim? Por acaso andou se apaixonando?" Sua voz tinha um >>tom divertido, mas ao mesmo tempo compreensivo, como se tudo fosse natural >>para ele. A seu convite, o galo angustiado, empoleirou-se a seu lado e >>contou-lhe a sua história. O filósofo ouviu cada detalhe com a paciência >>dos pensadores. Quando o consulente já se sentia compreendido, o velho >>sábio fez-lhe uma longa preleção:
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>>"Antes, quando você ainda achava que até o sol se levantava pelo poder do >>seu canto, digamos que você estava enganado. Para definir seu problema com >>precisão, você tinha o que pode ser chamado de "Ilusão de Onipotência". >>Então, pela mágica do amor, você descobriu o seu próprio engano, e até ai >>estaria ótimo, porque nenhuma vantagem existe em estar tão iludido. Saiba >>você que ninguém acredita realmente nessa história de canto de galo >>levantar o sol. Para a maioria, isto é apenas simbólico: só os tolos tomam >>isto ao pé da letra. "Entretanto, agora", continuou o sábio pensador, >>"Você está pensando que não tem mais nenhum valor, o que é de certa forma >>compreensível em quem baseou a vida em tão grande ilusão. Contudo, >>examinando a situação com maior profundidade, você está apenas trocando >>uma ilusão por outra ilusão. O que era uma "Ilusão de Onipotência" pode >>ser agora chamado de "Ilusão de incompetência". Aos meus olhos, continuou >>o sábio, nada realmente mudou. Você era, é e vai continuar sendo, um galo >>normal, cumpridor de sua função de gerenciar o galinheiro, de acordo com a >>tradição dos galináceos." Seu maior risco, continuou o pensador, é o de >>ficar alternando ilusões. Ontem era a Ilusão de Onipotência, hoje, Ilusão >>de Incompetência. Amanhã você poderá voltar à Ilusão de Onipotência >>novamente, e depois ter outra desilusão... Pense bem nisto: uma ilusão não >>pode ser solucionada por outra ilusão. A solução não está nem nas nuvens >>nem no fundo do poço. A solução esta na realidade. Após um longo período >>de silêncio, o velho galo filósofo voltou-se para os seus pensamentos. >>Nosso herói desceu da árvore para a vida comum do galinheiro. No dia >>seguinte, aos primeiros raios da manhã, cantou para anunciar o sol >>nascente. E tudo continuou como era antes.

>>(Maurício de Souza Lima)
publicado por Paula Valentina às 18:09

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